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terça-feira, 22 de outubro de 2019

OS MALES E BENEFÍCIOS DO SAL

                 Sempre ouvimos dizer que o sal faz mal, mas não é bem assim. O que faz mal à saúde é o excesso de consumo do sal. 
               Quimicamente a palavra "sal" designa uma categoria de substâncias que resultam da ligação entre um grupo de moléculas originadas de um ácido com um grupo que se origina de uma base (a soda cáustica, por exemplo, é uma base). 
                O sal que chega à nossa mesa para consumo passa por uma espécie de industrialização sofisticada. Depois de lavados e limpos, os cristais de sal são beneficiados. Para não empedrar, mistura-se a eles substâncias como fosfato de sódio e carbonato de magnésio. Em muitos países, entre eles o Brasil, o sal é enriquecido também de iodo (fórmula encontrada para evitar o bócio, doença causada pela falta de iodo no organismo. O mais importante para o organismo humano é justamente o cloreto de sódio. Junto com o potássio, o sódio é responsável pelo equilíbrio hídrico do organismo, protegendo-o das excessivas perdas de líquido. Ele também tem a função de ajudar a manter a atividade dos músculos, incluindo o coração. A falta de sódio gera fraqueza, apatia, náuseas e câimbras. Mas é preciso ter muito cuidado porque o excesso é extremamente prejudicial, podendo até levar à morte. Portanto, é bom senso manter um certo equilíbrio. O organismo, de qualquer animal ou pessoa saudável (aquele que não está viciado em comidas super temperadas) tem uma espécie de sabedoria vital que controla naturalmente esse equilíbrio. Somente pessoas com tendências à hipertensão, ou seja, pressão alta é que devem manter baixa quantidade desse produto. A hipertensão é causada, principalmente, pela retenção de água no organismo que faz aumentar o volume sanguíneo.
               Os rins têm uma função muito importante na questão do sal. Eles limitam as pedras desse produto na urina. O consumo excessivo aumenta o seu trabalho. Normalmente, eles não devem deixar que o sal se acumule no organismo. Mas, consumido em excesso, impõe uma sobrecarga a estes sensíveis órgãos. Se acontecer de todo o sal, que deveria ser eliminado, não ser filtrado pelos rins, passa a reter água, aumentando o volume de sangue em circulação e é exatamente isso que leva à pressão alta. Quando acontece esse desequilíbrio, pode causar "edema", popularmente conhecido como inchaço nos tornozelos, pés e mãos. 
                 Atualmente, graças aos métodos físicos e químicos, o sal passou a segundo plano como conservante de alimentos. Mas, infelizmente os seres humanos estão consumindo cada vez mais alimentos industrializados com alto teor de sal e gordura. A população mundial, principalmente a americana, está ficando obesa e doente. É que desenvolveram o "vício alimentar" e não conseguem se livrar facilmente dele. Muitos já estão se submetendo a cirurgias bariátricas, que seriam desnecessárias se fizessem um bom uso dos alimentos. O ideal é que não se veja as comidas disponíveis como guloseimas, mas sim como alimentos necessários para a saúde. 
               O sal mais comum é o cloreto de sódio (NaCI) e pode vir de três fontes: do mar, das minas de sal-gema, que geralmente são depósitos subterrâneos (também conhecidas como salmouras de subsolo, decorrentes da forte concentração de sal de mares ou lagos interiores, como o Mar Morto, que tem tanto sal concentrado que nele tudo flutua naturalmente. 

Um pouco de história
            Antes de existir as, hoje tão comuns, "geladeiras" o sal também era utilizado para conservar alimentos. Essa prática, como exclusividade, durou até o século XIX, mas, ainda hoje é utilizada para essa mesma finalidade. 
                O sal desidrata a carne e o peixe, impedindo o surgimento de vermes na área salgada. 
                Os romanos, ao perceberem que servia para conservar, dar sabor à comida e também curar ferimentos, chegaram à conclusão que os cristais de sal eram uma dádiva de Salus, a deusa da saúde - e em sua homenagem cunharam o seu nome. Dos muitos caminhos que levam a Roma, um dos mais conhecidos e movimentados até hoje é justamente a Via Salária, a antiga rota por onde circulavam carres cheios dos precisos cristais. Essa "viae salariae" atravessa a Europa de Oeste a Leste, alcançando a atual Turquia e desciam pelo Oriente Médio e norte da África. O sal era tão valioso que os mercadores o trocavam por ouro - um peso pelo outro. Na Abissínia, atual Etiópia, na África Oriental e Central, o sal era a moeda do reino. 
           Os romanos foram os inventores da palavra "salário", que até hoje é base para a economia mundial. Parte do pagamento de seus soldados era sempre feita em sal, que, como vimos, valia ouro. 
            Ao longo da história o sal temperou toda a história da humanidade. Este precioso produto começou a ser explorado e usado deliberadamente no início do "Período Paleolítico", cerca de 10 mil anos atrás, quando surgiram a agricultura, a pecuária e as primeiras comunidade rurais. 
                Como não poderia deixar de ser, o sal também temperou as crenças e religiões. Para os Hebreus era a marca da aliança com Deus. O sal era um elemento purificados, símbolo da perenidade da aliança entre Deus e o povo de Israel. 
              Desde então, o seu humano viciou-se em sal; além das carnes assadas ricas em sal, carne e cereais cozidos, mais insossos, precisando assim ingerir quantidades suplementares de cloreto e sódio. Essa quantidade foi gradativamente aumentando, na medida em que as pessoas buscavam mais comodidades e conforto. Foi então que surgiu a ideia de que o sal faz mal á saúde. 
                Acredita-se que foi observando o gado localizar fontes e poços salgados para saciar-se, que o homem descobriu o sal. Como sabemos, os animais com deficiência de sódio em seu organismo, pelo olfato, são capazes de achar águas salgadas.
               Com tanta dependência, era inevitável que o  homem religioso o incorporasse às uas crenças. Na religião judaica, por exemplo, o sal sempre teve forte presença. No Antigo Testamento existe a narração sobre o caso da mulher de Lot, transformada em estátua de sal porque olhou para trás ao fugir de Sodoma e Gomorra,  segundo a crença de então, destruídas pela ira divina. O ritual da Igreja Católica Romana, em que grãos de sal são colocados nos lábios dos recém-nascidos, reproduz a crença judaica no sal como elemento purificador. As fantasias e superstições dos crentes, incentivadas pelos líderes religiosos proliferaram; a mais conhecida é a que afirma que desperdiçar sal era mau agouro na certa, além de ignóbil. 
                  Milhares de anos se passaram e a força do sal continua presente com as rotas do sal cruzando o globo em incontáveis direções. 
             O historiador grego Heródoto (484 a.C.) contava das caravanas que atravessavam os mares Mediterrâneo e Egeu rumo às salinas do Egito e da Líbia. 
               Em sua famosa obra "A Última Ceia", o genial e irônico Leonardo Da Vinci (1452 x 1519), pintou um saleiro derrubado diante de Judas. Na época havia uma crendice de que se uma pessoa derramasse sal, deveria pegar alguns grãos caídos e jogá-los para trás do ombro esquerdo (o lado que representava o mal). 
                As crendices sempre estiveram presentes, principalmente incentivadas por religiões. No Brasil tivemos aquela ocorrida em 1792, quando da condenação de Tiradentes; os juízes portugueses mandaram salgar o chão da casa do nosso mártir da Inconfidência para que ali nada mais tornasse a nascer. 
                 Mas não foi apenas a ambição dos religiosos e crentes que o sal instigou. Os políticos também se aproveitaram de seu alto valor para cobrar extorsivos impostos. A partir do ´seculo XIII, os estados passaram a se ocupar gulosamente dos impostos que o sal podia levar para seus cofres. O produto passou a ser a única mercadoria que podia ser taxada em absurdos 2.000% (isso mesmo, dois mil por cento), sem que as pessoas pudessem deixar de consumi-lo. Alguns estados até se deram ao luxo de abrir mão dos impostos cobrados sobre o tabaco compensando a perda com escorchantes impostos sobre o sal. 
                No Brasil, o uso do sal foi introduzido pelos colonizadores portugueses. Os indígenas não usavam sal em seus alimentos. Em 1555, o missionário francês frei André Thevet escreveu: "Eles não comem coisas salgadas e proíbem que suas crianças comam". Também um naturalista holandês relatou que os canibais da tribo "umauás" não comeram a carne de um desertor espanhol por acharem-na muito salgada. 
                 O consumo do sal no Brasil Colônia teve grande crescimento. Não apenas os brancos, mas também os mestiços usavam-no na alimentação, na salgadas carnes e também nas rações para o gado trazido da Europa. Não demorou muito para que a Coroa portuguesa instituísse o monopólio desse produto para com isso engordar as rendas do Tesouro em Lisboa.
                 Nosso país sempre teve enorme potencial para produção de sal, mas na época colonial praticamente não existia. Os portugueses só permitiam que o sal extraído no Nordeste e em Cabo Frio, na então capitania do Rio de Janeiro, e também só poderia ser usado para consumo local. E, ainda assim, mediante o pagamento de taxas sobre a produção. Ester monopólio perdurou até 1801. Foi um período de 170 anos em que o alto preço do produto e as crises constantes de desbastecimento geraram muito contrabando e algumas revoltas.
              Na Europa, especialmente na França, reinos e impérios financiaram seu luxo e as guerras. A guerra dos 100 anos (1337 a 1453) entre a França e a Inglaterra foi financiada pelos gordos impostos sobre o sal. 
               Hoje os países costumam fazer reserva de dólares, mas naquela época os governos, reinados e impérios acumulavam grandes quantidades de sal como reserva para evitar um possível bloqueio do produto em seu território, que por certo os levaria a capitular em poucos meses.  
                Em 1378, os escorchantes impostos geraram um estado de revolta que instalou-se entre as populações urbanas do norte da França até Paris, além das populações rurais do sul do maciço Central, e ainda entre os artífices e operários das cidades de Flandres (na França, Bélgica e Holanda). 
             A onda de protestos culminou com a revolta dos açougueiros (grandes consumidores de sal) em 27 de abril de 1413 em Paris que terminou com um código com 259 artigos estabelecendo regras para a cobrança dos impostos, que naturalmente não foi respeitado pelos donos do poder. 
            Mas a ganância dos soberanos franceses não tinha limites nem prudência. Os reis continuaram a fazer do sal a sua maior renda. pode-se dizer que todo o luxo de Versalhes era garantido pelo sal. Às vésperas da Revolução Francesa, o imposto sobre o produto representava 13% do total das receitas do Tesouro real. Isso só alimentou oi ódio popular à monarquia e, por essa razão, teve fundamental importância na deflagração da Revolução Francesa que lançaria as bases da democracia moderna. 
           Outro episódio interessante foi a luta contra o colonialismo na Índia. Em 1930, em protesto contra o aumento da taxação sobre o sal imposto pela Inglaterra, o Advogado Mahatma Gandhi (líder da não violência) conduziu levas de peregrinos até o litoral, para ali fazerem seu próprio sal. Este episódio foi um passo decisivo que culminaria com a independência da Índia em 1948. 

A importância do sal na indústria moderna
                Para centenas de atividades industriais, o sal é matéria prima básica. É com ele que se produz a soda cáustica e o cloro tão utilizado para tornar nossas poluídas águas em potável. É a soda cáustica e o cloro que permite o clareamento do papel. Tintas, vidros, vernizes, cosméticos, porcelanas e até explosivos são totalmente dependentes do sal para serem produzidos. O cloro e o sódio são de vital importância para a produção de tecidos, películas, aditivos, produtos metalúrgicos e farmacêuticos. O PVC, material básico para a indústria de plásticos é !cloreto de polivinila". As nossas dores cirúrgicas dependem do sal, pois o clorofórmio é a base dos anestésicos. O cloreto de cálcio também está presente nos refrigerantes, fungicidas e combustíveis. O óleos vegetais, sabão, tecidos são apenas alguns produtos derivados do sódio; não se poderia produzir fertilizantes químicos, fogos de artifício e até dinamites. 




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